Calor de verão: memória, amizade e traição

 

TV fora do arAndo meio estressada, admito, ainda de ressaca por conta das dificuldades da obra da nossa casa, dos compromissos assumidos em terra estrangeira e da quantidade de mudanças que me obrigo o tempo todo a enfrentar. Na última semana, por exemplo, somando ao novo domicílio a mudança de endereço do meu maior e mais importante projeto atualmente em execução, o portal de notícias Crônicas da KBR.

É bem verdade que, em geral, não tenho a menor piedade nem compaixão por mim mesma, mas nada me preparou para o piripaque que enfrentei ontem pela manhã, diagnosticado pelo Dr. Alan Sklar — doutor de araque, é claro — como “insolação”.

O fato é que, entre as 9 da manhã e um horário indefinido de ontem, sábado, esta cronista que vos escreve esteve fora do ar. Literalmente. “Dessintonizei”, se é que vocês me entendem, como um satélite de TV em dia de temporal, e tive meu cérebro temporariamente reduzido àquele chuvisco típico sussurrando na tela.

Foi assustador. Quando “voltei”, custei um bocado a entender o que havia acontecido. Estava vestindo uma camiseta preta. Meu cabelo estava úmido. Havia um copo de Coca-Cola na mesa de cabeceira. Eu estava morrendo de fome, e pior, sem que soubesse como, eram quatro da tarde e nem havia editado ainda a crônica do dia, como vocês devem ter percebido.

No Skype — que, para piorar, enquanto eu estava “fora” atualizou seu site no celular, adicionando opções de cores e substituindo seu logo tradicional por uma cobrinha dançante (ou será que estou variando?) — estava uma das provas de que algo muito estranho estava acontecendo. Havia uma mensagem do Alan enviada às 11h20, dizendo o seguinte: “Com a síncope, ocorre a redução temporária do fluxo sanguíneo, inclusive para as regiões que controlam a memória, como o hipocampo e o sistema de ativação reticular”. Duas horas depois, às 13h12: “Juntas, essas descobertas sugerem que o estresse por calor pode levar à ativação das células gliais e à indução de moléculas inflamatórias no hipocampo, o que pode causar perda de memória”.

Pois é. Com a minha herança maldita, considerem meu estado de pânico ao perceber que não me lembrava de nada que ocorrera nas últimas horas. Alan me disse que fomos à loja comprar uma pá e um ancinho, o que pode ser confirmado pelo email enviado pela operadora do cartão usado para pagar a compra. De volta em casa, peguei a pá e fui lá fora trabalhar, sem chapéu, sob o sol de verão, ansiosa para instalar o duto de escoamento de água para evitar futuras tragédias e uma erosão descontrolada no nosso terreno, causada por chuvas e temporais, um deles ocorrido na noite anterior e com vários outros prometidos para a semana que vem. Ainda segundo o Alan, coloquei várias pedras para manter o duto no lugar (as pedras estão lá) e em seguida entrei em casa, desorientada, suja de terra, chorando, dizendo que o duto estava desconectado e me repetindo obsessivamente. Toda a conversa ele teve o cuidado de anotar num papel para dirimir dúvidas (e loucuras) futuras, outra evidência sendo as roupas cheias de terra no cesto de roupa suja da lavanderia.

Não é a primeira vez que isso me acontece. Da primeira, ocorrida há mais de 20 anos durante férias na praia junto ao meu “paramour” do momento, não me ocorreu que pudesse ter sofrido uma insolação, que já tinha experimentado no Peru, com delírio e febre alta — sintomas que não tive nem ontem, nem há 20 anos. Perdi a consciência por um período indefinido de tempo e, quando voltei a mim, estava sentada sozinha à beira da estrada, chorando. Sem saber o que fazer ou o que pensar, me levantei e voltei caminhando para a casa onde estávamos hospedados. Lá chegando, perguntei ao Cláudio o que havia acontecido, por que eu estava sozinha, por que ele havia me deixado lá, e o que tinha feito para me fazer chorar tanto.

Ele nunca quis me contar. Durante anos insisti em perguntar, e tentei por todos os meios recordar o que havia perdido, inclusive em sessões de terapia. Mas nada adiantou.

Desta vez, duas diferenças: a primeira é o conforto da confiança absoluta que deposito no Alan, apesar de nossas muitas brigas e discussões quanto a quase tudo; a segunda, bem pior, é a consciência de que talvez, um dia — que, em tese, se aproxima cada vez mais — sucumbirei ao mal de alzheimer (com minúscula, por favor), possibilidade felizmente deixada de lado à medida que percebo que minha cognição não foi afetada em nada e meu cérebro continua em plena forma. Estou apenas com sono, provavelmente por não ter conseguido dormir direito devido ao medo de “me perder” mais uma vez.

Amor e confiança à parte, um fato curioso é que Alan também está se recusando a me contar detalhes do evento além do que se preocupou em registrar. Desta vez, no entanto, a “experiência” me aconselhou a, simplesmente, desistir de tentar lembrar. Estou procurando me consolar com a evidência da dor nas costas, que provavelmente comprova minha atividade com a pá. Pobre Alan, deve ter passado por um susto danado.

Fica a pergunta: o que será que minha personalidade lunática se permite fazer que torna tão dolorosas as suas revelações?

Provavelmente, nunca saberei, e terei que me conformar, já estou conformada. Enfim, apesar do cansaço e da cabeça pesada, que somente agora, mais de 24 horas depois, está começando a melhorar, passei a noite tentando me lembrar de coisas ocorridas recentemente, para excluir a possibilidade do alzheimer. Realmente, me lembro de tudo com detalhes, com exceção daquelas algumas poucas horas. No resto do dia ontem ainda fiquei meio sem noção do tempo, tentando compensar, mas agora, enquanto escrevo, já estou de volta ao meu estado normal, graças a Deus. Melhor deixar o resto pra lá.

No entanto, enquanto eu estava perdida e desmemoriada, ocorreram coisas muito mais sérias do que a mudança de “cara” do Skype no celular. Várias horas depois de ter voltado à consciência, tomei ciência através de um email de que algo muito grave havia acontecido exatamente durante aquelas horas, e que uma pessoa de minhas relações, na qual confiei incondicionalmente por mais de oito anos, havia perpetrado um ato de traição durante a minha ausência.

Tive a louca, absurda sensação de ter “sido tirada do ar” por algum guia espiritual ou outra bobagem do tipo, para evitar o choque dessa revelação, muito mais incômoda e marcante do que a síncope que havia sofrido.

Aos 65 anos, imaginem, tenho o hábito insalubre de me abrir e confiar nas pessoas, transformando colegas de trabalho em amigos, e, ao que parece, estou muito velha para aprender. Mas depois de oito anos… e de dezenas de oportunidades para comprovar a fidelidade… Pior, possivelmente por causa de dinheiro, e bem menos que 30 dinheiros…

Ah, ok. Talvez a ampla crise financeira, ética e moral que assola o Brasil — sim, a pessoa em questão mora no Brasil, e mais não direi — sirva de desculpa viável para essa atitude deplorável.

A concorrência, tudo bem, é normal no mercado. Não encaro como traição, por exemplo, o fato de trabalhar como tradutora como minha amiga Clarisse, que é mais experiente, e, com frequência, me dá dicas do setor, mas isso porque Clarisse é uma ótima pessoa e sempre se coloca como colega, não como concorrente. Nunca, porém, seria capaz de ligar e oferecer meus serviços “a preço mais baixo” para um de seus clientes, mesmo que, no fundo no fundo, precisemos dar prioridade à nossa própria sobrevivência… Sabem como é, como naquela velha história dos “rápidos ou famintos”.

Nunca, porém, deixando de lado a noção de que somos humanos, seres sociais e, por que não dizer, também espirituais. Sem o respeito ao próximo, sem amor, sem a valorização da fidelidade e da amizade, e pelo menos uma mínima possibilidade de transparência e confiança, somos menos que humanos na verdade, não-pessoas, joguetes mentais navegando sem rumo no arremedo de vida das redes sociais.

No mais, celebremos a memória, a lucidez, as oportunidades, o amor e a amizade, enquanto tais coisas existem e persistem para ser celebradas, não é mesmo?

Tenham uma boa semana!

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