O elo perdido

 

I don't careGentileza é uma commodity que está em falta no mercado. Não sei de quem é a culpa: se da máquina ou da sociedade, que tem evitado o contato social preferindo delegar a função de existir aos aplicativos. Do prato do almoço ao sexo casual, tudo se resolve ao alcance de um toque.

Fato é que as pessoas estão muito grosseiras. Esta semana, por exemplo: nada de colher de chá no trânsito, ou um convite para degustar a nova linguiça defumada no empório do bairro; nem um mísero “Bom dia, princesa” de um borracheiro.

O que marcou meus últimos sete dias foram as inúmeras demonstrações de ausência de gentileza e pouco caso dos “populares” que cruzaram meu caminho. Não estou me referindo àqueles que têm narcolepsia ao primeiro sinal de um idoso entrando no ônibus ou metrô. Falo de casos que aconteceram comigo.

A primeira — que vem ocorrendo há tempos, na verdade — é a falta de educação dos moradores do prédio em que moro. Raríssimos são os que cumprimentam quando entram ou saem do elevador. Ainda assim, insisto. Pareço uma autista, no meio de tanta gente “normal”. Outro dia, ao me aproximar da porta do hall do prédio, notei um pai com um filho no colo que estava prestes a sair. Solícita, segurei a porta e desejei-lhe bom dia. O sujeito não respondeu nem agradeceu. Comportou-se tal um egípcio, afastando-se para o lado.

Não aguentei. Desabafei com a moça que vinha logo atrás: “Que mal-educado…”

Ela concordou, sorrindo sem graça e também saindo como uma egípcia.

Mas as piores grosserias acontecem na academia. Na entrada do vestiário, quase trombo com uma senhora, que, de cabeça baixa, consultava o celular. Ao perceber o encontrão, reagiu com um muxoxo e uma cara hostil. Assim que levantou os olhos, a reconheci: era uma daquelas atrizes dos anos 1980 cujo nome eu não saberia dizer — aristocrata nas novelas, pitbull na vida real.

Sem perder as esperanças, dirigi-me à sala de musculação. Respirei fundo e passei à obrigação diária. Sem conseguir abaixar a trava de um dos equipamentos que usaria, pedi ajuda. Diante da pergunta “Você pode me ajudar a abaixar isso aqui?”, três reações: um fingiu que não ouviu (ou não escutou mesmo); o outro estava muito distraído no smartphone e nem notou minha presença. Já o terceiro é um caso para estudo: usava fones de ouvido, mas viu que eu gesticulava apontando o problema, olhou pra mim e gesticulou com as mãos, agradecendo.

Foi como se estivéssemos num farol e eu me oferecesse para lavar seu para-brisas. Meu instinto goleiro Bruno arremessou uma caneleira de oito quilos na cabeça dele, mas descobri que meu instinto político é mais forte. Prometi, mas não cumpri. Depois, acabei rindo da minha ingenuidade: deveria ter reparado que um homem de seus 30 e poucos anos com a aba do boné virada pra trás estilo “capeta em forma de guri” não devia ser boa coisa.

Passei o resto do tempo elaborando planos mirabolantes para me livrar daquela Elisa Samúdio de boné. Entre uma série e outra, a joguei aos cães e desovei o corpo atrás dos colchonetes.

O único gesto altruísta do dia veio quando (e de quem) eu menos esperava. Ao entrar no prédio e me aproximar da mesma porta dos egípcios, vi que ela se abriu sozinha. Do outro lado, um gordinho de uns 10 anos de idade com as bochechas rosadas, uniforme do colégio e mochila nas costas. Minha alegria foi tão grande que o pequeno deve ter estranhado um “obrigada” tão efusivo. Por pouco não tasquei-lhe um beijo.

Depois dessa cena, fiquei mais tranquila. Ainda resta esperança.

Foto Marvin Ng.

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