Governo bom é governo que não se percebe

 

Michel Temer

Temer em pronunciamento no Planalto em 18 de maio.

Ontem, a Bolsa de Valores de Nova York bateu novo recorde, ultrapassando a marca dos 22 mil pontos, seis meses depois de ter batido inéditos 20 mil. Artigo de hoje no New York Times descreve o momento positivo na economia americana e faz um tremendo esforço para desvincular as boas notícias da presença de Donald Trump na Casa Branca.

O artigo, auspiciosamente intitulado “Wall Street sobe com firmeza, deixando de lado a ‘novela’ na Casa Branca”,  ignora o otimismo relacionado à nova administração — com discreta concessão ao fato de que o novo governo tenha liberado a pesada regulação da era Obama — para creditar o salto a uma forte demanda global por atividades como mineração, petróleo e gás, e um dólar fraco que favorece as exportações.

“Ninguém no mundo dos negócios se importa com quem falou com quem na Rússia”, afirma um empresário, coisa que a gente já sabe. O que o jornal ignora, ou finge ignorar, é que apenas a mídia coloca esse peso todo no “conluio” com a Rússia, demissões e guerra de poder na Casa Branca. Outra vertente afeita a “teorias de conspiração” afirma que tudo não passa de “distração” para desviar a atenção do público dos verdadeiros problemas, como a cada vez mais inevitável guerra com a Coreia do Norte.

A verdade é que, apesar da aparência de fracasso e caos, Trump tem conseguido fazer muita coisa, cumprindo várias de suas promessas de campanha que não precisam do favor partidário.

Não sei se esse estado de coisas reforça ou contraria a noção de que “governo bom é governo que não se percebe”.  Mas, certamente, nos lembra a canção de John Lennon, que certamente me odiaria por associá-lo a este presidente demente: “Vida é o que acontece quando a gente está ocupado fazendo outras coisas”. Em forte contraste com Obama, Donald Trump no governo vive e deixa viver. E a vida responde adequadamente.

Outro artigo interessante, desta vez no meu jornal internacional favorito, o Times of London — TOL para os íntimos, ui! — explica como o advento e aumento das redes sociais nos levou a esta sociedade tremendamente polarizada, seja qual for o tema — o artigo enfatiza, entre outras coisas danosas, a atual “fluidez de gênero” —, principalmente porque podemos nos mostrar do jeito que queremos, não do jeito que realmente somos, numa dissimulação quase livre de consequências. Um dos casos tragicômicos fala de uma mulher lésbica, versada no uso de prótese peniana, que frequentou a rede por longo tempo para arranjar encontros, durante os quais mantinha suas parceiras vendadas. Uma delas levou várias semanas para descobrir o motivo de o pênis de seu “parceiro” ter gosto de borracha; mas depois de uma risada breve, me vi imediatamente transportada à violência política que nos assola, e que também, pelo menos aqui nos Estados Unidos, pouco tem a ver com a vida cotidiana.

Por que estou lembrando tudo isso agora? Acreditem ou não, tem a ver com o Brasil. Agora que o nosso Congresso — com todas as caras feiosas e discursos analfabetos — nos livrou da carga de termos que lidar com um terceiro presidente, o melhor que temos a fazer é ignorar na medida do possível o governo e suas falcatruas e voltar nosso foco para a vida real, deixando a dura tarefa de moralização ética a quem te fato a detém: a Polícia Federal.

O povo já está se virando nessa direção. Artigo de Reinaldo Azevedo publicado ontem informa que “antes, os brasileiros estavam nas ruas, e ele [Wagner Moura, mas também os outros artistas citados no texto] estava nos bunkers culturais da esquerda acusando os adversários de golpistas. Agora, as ruas estão vazias, e Moura e seus amigos pedem o que, sem favor nenhum, é, sim, um golpe, porque nasce de uma penca de ilegalidades”. Cada vez mais, tanto cá como lá, não só a mídia, como também o universo politizado das estrelas de Hollywood — no Brasil, conforme Azevedo, “ozartista” —, parecem divorciados da realidade.

Melhor assim. Fazer sucesso como celebridade nunca deu brilhantismo a ninguém. E embora, ainda segundo Azevedo,  “a vitória robusta do governo Temer” tenha certamente gerado “uma roda de choro na casa de Mano Caetano”, posso apostar que o povo brasileiro respira aliviado.

‘Bora relaxar para pôr as energias em dia em preparação para 2018, quando novas e cruciais batalhas nos aguardam.

Foto Ueslei Marcelino/ Reuters

https://www.nytimes.com/2017/08/02/business/economy/stock-market-trump-economy.html

https://www.thetimes.co.uk/article/social-media-is-making-gender-meaningless-mx6zdmgdq

http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/post/os-iluminados-de-caetano-e-wagner-moura-nao-veem-pais-alem-e-aquem-da-orla-ja-nao-conduzem-ninguem/

http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/post/vitoria-robusta-do-governo-temer-certamente-gerou-uma-roda-de-choro-na-casa-de-mano-caetano/

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