Um golpe depois do outro

 

Um golpe depois do outro   Uma Constituição que funciona, mas mesmo assim foi “eleita” uma Assembleia Constituinte para mudá-la, de forma a propiciar mais poder para o presidente — isso é golpe. Um parlamento eleito democraticamente dissolvido para abrigar a nova Constituinte: golpe. Mudar a regra do jogo no meio do caminho, retirando a imunidade parlamentar dos opositores, é o quê? Golpe. Na Venezuela é assim: um golpe depois do outro. A vítima é o povo, a população venezuelana, presa numa armadilha, sendo golpeada continuamente, lutando contra o poder estabelecido em condições desiguais.

Bem diferente do Brasil, em que a vítima do “golpe” foi um partido político. Aqui, ainda que os figurões estejam indo, um a um, para a cadeia, não se fala em abrir uma Constituinte. Nosso povo sabe que isso é temerário e os políticos, reconhecendo a derrota, nem cogitam.

Na Venezuela, os opositores estão indo, um a um, para a cadeia. No Brasil, os bandidos corruptos estão sendo julgados com direito a ampla defesa, e recebem condenação, seja em regime fechado, semiaberto, domiciliar ou aberto. No país caribenho, os líderes da oposição foram levados presos, não se sabe para onde. Alguns até sem julgamento. No Brasil, os líderes da oposição, cidadãos livres, assinam resoluções de apoio a Nicolás Maduro e seu (des)governo autoritário. Na Venezuela, quem vai às ruas protestar, é detido — cerca de 40 pessoas por dia — acusadas de terrorismo e insurreição. Pobres vizinhos! Mais de 100 mortos pela repressão. Não têm sequer armas; no máximo, se defendem atirando pedras nos policiais. No Brasil, quem vem a Brasília protestar e depredar o patrimônio público volta pra casa de boas: não acontece nada, o cidadão nem é fichado; no máximo, assinam um termo de responsabilidade.

Acho que esses pequenos relatos são suficientes para entender a diferença entre golpe/ autoritarismo e democracia. O Brasil está ruim, mas está bom, verdade seja dita.

Nessas condições e com a recusa de Maduro ao diálogo, o Mercosul está pronto para aplicar a cláusula democrática contra a Venezuela, que será formalmente suspensa do bloco. Uma falta gravíssima. A tolerância latina foi ao limite, e não é possível que o Uruguai, depois de tudo o que vimos nesse fim de semana, seja capaz de barrar a suspensão. A decisão é por consenso; se um não quer, os quatro não fazem nada.

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http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,opositores-lopez-e-ledezma-voltam-a-ser-presos-na-venezuela,70001917944

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,na-venezuela-cerca-de-40-pessoas-sao-detidas-a-cada-dia-por-protestos,70001916419

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,maduro-recusa-plano-de-dialogo-e-mercosul-deve-suspender-venezuela,70001917500

Foto: VPI TV