Fidelidade ao judaísmo e frustração política

 

Ayeket Waldman e Michael Chabon

O badalado casal Waldman/ Chabon numa livraria de Nova York, em abril de 2014.

Não estou reclamando, embora assim possa soar à primeira vista. Meu próprio marido parece acreditar que esse trabalho meio voluntário de comentar o mundo para ajudar que outros o entendam é fonte de permanente depressão.

Esclareço: a depressão nada tem a ver com isso. Ela existe por si, e num mundo como o nosso, quanto mais a gente entende, mais a gente se deprime.

Vale a pena?

Sim. Muito.

É muito alto o preço de não entender aquilo que nos cerca, ainda que muitas vezes seja difícil acreditar que com palavras organizadas em frases e lidas esparsamente a gente contribua uma vírgula que seja para mudar o estado de coisas.

Muito mais do que a depressão, o que marca os meus dias e as decisões sobre o que escrever que tomo todos os dias é a perplexidade. Por que ocorre isso ou aquilo, se parece tão absurdo e fora da realidade?

Uma das coisas que mais me perturba é a opção da esquerda barulhenta por condenar Israel em qualquer circunstância. O assunto se impôs ontem à noite, quando li no Facebook de uma amiga um artigo de Rodrigo Constantino sobre a desvirtuação pela unanimidade da imprensa dos fatos ocorridos na última sexta-feira, quando uma policial israelense foi esfaqueada e morta em Jerusalém por três “militantes” palestinos que acabaram também mortos em ação pela polícia. Como analisa Constantino, “o título chocante da BBC [e outras fontes citadas no artigo] levava o público a pensar que os palestinos foram esfaqueados. A única certeza que dava é que três palestinos haviam sido mortos — não que fossem terroristas que haviam acabado de assassinar um israelense e estavam tentando matar outros. Após intervenção, vejam só, do primeiro-ministro Netanyahu e do filho de Trump, a BBC mudou sua manchete e deletou o tweet original, mas a questão permanece: por que o caso foi reportado daquela forma em primeiro lugar?”

Só Constantino não teria me motivado a escrever. Mas há poucos minutos, consultei uma outra fonte involuntária que faço questão de ler todos os dias, Stuart Schnee, um judeu americano religioso que mora nos assentamentos em Israel.

Schnee é uma daquela pessoas do bem que se sentem obrigadas a se manifestar com viès de esquerda. Mas a cada artigo que ele recomenda — Schnee é jornalista e também publicista por profissão —, sempre em tom de desculpas, torna-se mais nítido que ele não suporta mais manter sua posição “adequada” no espectro político.

O artigo da vez é a resenha de uma coletânea de ensaios sobre o relacionamento entre Israel e os palestinos organizada  por um casal literário ultrabadalado aqui nos Estados Unidos, Michael Chabon e Ayelet Waldman. Ayelet é meio sabra, filha de uma imigrante israelense, e Chabon, devo confessar, está morando há uns três meses na minha mesa de cabeceira aguardando que eu tenha energia para ler seu novo livro Moonglow, relato meio autobiográfico que conta a história de seu avô, imigrante judeu, que no livro está em seu leito de morte em estado de delírio meio permanente e confia ao neto suas memórias. Depois dessa resenha, desanimei de vez. Vejam esse trecho: “(…) como Chabon não menciona as justificativas de Israel para essas ações [contra os palestinos], as razões propriamente ditas da segurança reforçada durante a Segunda Intifada, a miséria de Bahour [palestino, dono de um supermercado utilizado na época citada para interrogar militantes] parece ser, simplesmente, resultado de uma espécie de sadismo sancionado pelo Estado”.

Outro escritor de quem já gostei muito, tido como um dos mais brilhantes autores israelenses da atualidade e também muito popular nos Estados Unidos, é Etgar Keret. Com este tive uma interação pessoal na época em que esteve no Brasil para a FLIP, se não me engano em 2014. Para variar, havia ocorrido algum evento grave entre israelenses e palestinos do qual já não me lembro direito. Conhecedora das tendências esquerdistas de Keret, movi montanhas no sentido de ter um contato direto com ele e pedir-lhe encarecidamente que não denegrisse a política israelense em Paraty, visto que o público brasileiro não tinha conhecimento histórico suficiente para julgar a situação com imparcialidade. Keret foi muito gentil e me tranquilizou,  disse que amava Israel e nunca faria nada que prejudicasse o país. O que ele disse em Paraty não lembro, nem sequer se seguiu o meu conselho.

Será que esses intelectuais famosos não têm vergonha de picar a própria carne?

Sua atitude seria justa caso Israel fosse realmente um Estado carniceiro e cruel, o que está longe, muito longe da verdade. Já os palestinos optaram por reagir a uma situação pela qual, por sinal, Israel não pode ser responsabilizado, explodindo bombas e esfaqueando civis. Embora Israel em sua base tenha sido um modelo de sociedade esquerdista — ainda que, ao longo dos anos, tenha se tornado bem óbvio que a natureza humana não se adapta a tais teorias ineficazes e uniformizadoras —, ainda assim o país se tornou o alvo preferencial desses que se consideram os donos da bondade e da justiça, com base em falsas premissas.

Na contramão de tais crenças inexplicáveis reluz a esperança, ainda que tênue, de que o governo de Donald Trump faça alguma coisa para alterar esse estado renitente de coisas e corrigir tais injustiças. Enquanto escrevo, seu emissário Jared Kushner — continuamente achacado em casa por não comprovadas alegações de “conluio” com a Rússia, ai, cansaço — voltou ao Oriente Médio numa “nova tentativa” de encontrar um caminho para a paz.

Me pergunto o que farão tão empolgados e intelectuais ativistas quando — e se — esse objetivo escorregadio for atingido. Terão que encontrar outra minoria achacada para exercerem suas distorcidas influências, cujo alvo fundamental é a culpa que sentem por estarem vivos e cobertos de privilégios aos quais não acreditam ter direito. Pelo menos quanto a isso estão bastante corretos.

Foto Strand Books.

http://www.salon.com/2017/06/19/jared-kushner-is-giving-peace-between-israel-and-palestine-another-try/

https://www.commentarymagazine.com/articles/immoral-equivalence/

http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/israelense-hadas-malka-e-assassinada-mas-manchetes-vitimizam-atacantes-palestinos/

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