O medo maior

 

O mar e seus habitantes sempre estiveram no imaginário das pessoas. Na época das grandes navegações, o temor era de se chegar a seu fim e encontrar toda a espécie de criaturas e monstros.

Avançando um pouco no tempo, um grande romancista, Herman Melville, criou uma obra que traduziu em palavras esse temor: Mobi Dick era uma grande baleia branca, que destruía os navios que porventura cruzassem seu caminho.

Recentemente, um cineasta americano modernizou esse medo ao criar nas telas do cinema a saga de um tubarão devorador de seres humanos.

Se a baleia assusta por seu tamanho, o tubarão traz, além de sua dimensão, sua fúria como materialização de nosso pavor. Mas se alguns temem de maneira insana tal criatura, outros têm pela mesma grande admiração.

Um aquarista de São Paulo resolveu criar um desses animais num aquário em sua casa no interior do Estado. Sabe-se lá como, arrumou um filhote de tubarão-lixa, uma espécie bem agressiva encontrada no nosso litoral, e o levou para casa.

Criou o “bichinho” até este não caber mais num tanque que o conservava desde pequeno. Com o singelo nome de “Dentinho”, o jovem tubarão já não cabia em suas dimensões, e seu criador resolveu chamar os órgãos públicos responsáveis por sua preservação para ajudá-lo.

Existe uma lei que proíbe as pessoas de criarem animais selvagens de nossa fauna em cativeiro; existe também a anistia para essa falta, se aquele que o aprisiona denuncia voluntariamente a situação. Foi o que fez o carcereiro de nosso jovem tubarão.

Retirado do local onde se encontrava, Dentinho foi transportado para um grande aquário público em Ubatuba para que se readaptasse a um ambiente maior, uma vez que dificilmente poderá ser devolvido ao mar.

Descobriu-se que Dentinho tem 7 anos (ficou três anos e meio preso no pequeno tanque) e, ao contrário do que seu antigo dono pensava, é uma fêmea. Ou seja, terá que trocar de nome e assumir sua verdadeira identidade.

Hoje, nossa amiga do mar se alimenta de povos e lulas, e vive num bom lugar. Sua saga expõe que, mais que o temor que temos pelos tubarões, na verdade talvez eles é que tenham motivos de nos temer. Essa espécie de tubarão, antes frequente em nosso litoral, hoje está ameaçada de extinção pela pesca predatória. Correm o risco de perderem a vida, e eventualmente, como ocorreu com a nossa amiga, a própria liberdade.

Viver sem liberdade é um destino pior e mais aterrorizante do que a própria morte. Ser livre para escolher que caminhos podemos percorrer, afinal, é a razão primeira de nossa própria existência.