Esther, uma alma franca

Esther Frankel na Farra SP, em agosto de 2011, lançamento de seu livro “Navegar é preciso” na Cultura do Conjunto Nacional

É preciso surfar essas ondas todas, para além de tudo isso.

Esther Frankel

 

Quando fui convidada por Valéria Martins a avaliar o original de Lícia Manzo entrevistando Esther Frankel, tendo como tema a trajetória pessoal e profissional da pioneira da Biossíntese no Brasil, eu já sabia que a entrevistada estava doente. Tinha tido um câncer, fora curada, e agora a doença voltava com força, mas a autora, fui informada, a encarava com energia e graça. Era verdade.

Editei o livro com um sentimento de orgulho, afinal, era um monumento da psicoterapia nacional que eu editava, um momento histórico que ali se registrava. E mais, não me escapava o fato de que ali se comentava também um momento da minha própria história.

Muitas coisas na trajetória da Esther me afetavam, a herança do holocausto (sempre em letra minúscula, por favor), a identidade judaica, a princípio bastante pronunciada, a ligação com Israel, e, por que não dizer, com as comunidades terapêuticas que eu já havia frequentado e onde ela era figura citada e respeitada, embora em seu próprio consultório eu nunca tivesse estado e nunca a tivesse encontrado pessoalmente.

Gosto destas duas vertentes da história, a judaica e a psicoterápica; ambas fazem vibrar um acorde profundo dentro de mim, uma das cordas meio oculta e apaziguada, a outra fundamental para o meu estilo de vida e até mesmo de escrita. Embora eu não seja religiosa, como no outro dia mesmo garanti ao cardiologista do Alan — nada espiritual para me apoiar em caso de a tragédia me acometer —, sem a minha herança judaica eu não teria como sobreviver.

Fui prosseguindo no texto e me aprofundando nele, com a Farra do POD em vista, tudo isso sem que a própria Esther estivesse envolvida, sempre dirimindo as dúvidas com seu dedicado marido e parceiro, Milton Corrêa. A capa do livro foi desenhada pelo filho, Micael Hocherman Corrêa, as questões financeiras intermediadas pela dedicada secretária da Escola, Marcella Belfiore, tudo permeado por um sentimento de respeito e admiração sem perturbar o ocupadíssimo cotidiano de Esther, que seguia dando aulas e sessões, viajando pelo mundo com suas palestras e vivências de biossíntese.

A primeira vez em que, meio preocupada, procurando uma cadeira que a acomodasse sem incomodá-la, coloquei os olhos na figura delicada de Esther Frankel foi na mesa de autógrafos da Livraria da Travessa, há pouco menos de um ano, onde o livro seria autografado como parte da Farra, um grande evento literário: era interminável a fila de admiradores da Dra. Esther, que estava visivelmente feliz e emocionada.

Pois eu quis ir além, ousar mais, me emocionar mais, dar às pessoas a oportunidade de compartilhar mais o prazer da companhia luminosa da Dra. Esther. Convidei-a para participar da Farra SP, que se realizaria em agosto, dali a quatro meses. Ela aceitou.

A Farra SP excedeu a do Rio em teor emocional, e a igualou, se não chegou a ultrapassar, em número de exemplares vendidos. Era tanta gente para homenagear a Dra. Esther que os outros autores tiveram dificuldades de se colocar. Suas irmãs vieram dos Estados Unidos, amigos e discípulos de vários lugares, sei lá, se juntaram a nós para homenageá-la, e ela estava feliz! Realmente feliz! Eu, francamente, me emocionei, cheguei a chorar, chorei várias vezes naquele dia. Esther só repetia: “Maravilhoso! Maravilhoso!”

Foi a última vez que a vi. Embora de vez em quando ela despontasse num canto do meu pensamento, fui levada pelo constante aluvião de outros autores, outros lançamentos. Deixei rolar.

Até que esta manhã me veio a triste notícia de que a Dra. Esther tinha falecido. Dizer o quê? Nunca sei o que dizer nesses momentos, sou ruim de morte, nunca perco uma oportunidade de confessar isso. Mas vejo ainda, verei para sempre a Dra. Esther, frágil, charmosa, elegante, vestida no azul que lhe era característico, com a felicidade estampada nos olhos de mesmo tom.

Maravilhosa, Dra. Esther Frankel. Obrigada por ter me deixado participar de um pedacinho de sua vida, um dos que contribuirá, se a sorte permitir, para eternizar sua obra e sua memória dedicada. E saiba que também contribuiu um bocado para a nossa própria paz interior, para a paz interior de muita gente, sua família, seus amigos, colegas e pacientes, é isso o que mais importa na herança de uma vida. Fique em paz, querida. Vai nos fazer muita falta.

 

Editora KBR
Páginas 124
ISBN 978-8564046627
Ebook R$39,41
POD R$12,99
Na Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/8564046628

 

 

4 Resultados

  1. priscila disse:

    Tive a oportunidade de me sentar próxima da Dra. Ester nas duas farras do POD e me admirei de var tanta gente que a amava tanto, cheguei até a comentar o fato com ela própria que humildemente sorriu. Não sabia de suas condições físicas e a notícia de sua morte me entristeceu. Tenho certeza de que ela estava muito preparada para essa passagem. Desejo força aos familiares para superar a dor.

  2. priscila disse:

    Tive a oportunidade de me sentar próxima da Dra. Ester nas duas farras do POD e me admirei de var tanta gente que a amava tanto, cheguei até a comentar o fato com ela própria que humildemente sorriu. Não sabia de suas condições físicas e a notícia de sua morte me entristeceu. Tenho certeza de que ela estava muito preparada para essa passagem. Desejo força aos familiares para superar a dor.

  3. Fátima disse:

    Muito lindo… Parabéns a você pela homenagem e pela parceria na edição do livro “Navegar é Preciso”… Grande beijo

  4. Fátima disse:

    Muito lindo… Parabéns a você pela homenagem e pela parceria na edição do livro “Navegar é Preciso”… Grande beijo