Sem medo de ser feliz

enemSentou-se na carteira e o estômago lhe doeu.

Sua boca estava seca.

Olhou ao redor e viu os outros candidatos se sentando a seu lado.

Tentou se acalmar, mas se sentiu mais nervoso. Colocou o lápis, a borracha e a caneta sobre a mesa e aguardou.

Soou uma campainha e distribuíram as provas. Um suor frio lhe desceu pelas costas e ele sentiu que estava perdido.

O responsável pela sala anunciou:

— Vocês têm quatro horas para terminar a prova! Podem começar!

Virou as folhas à sua frente e viu o tamanho da encrenca. Além das matérias curriculares, ainda havia a redação.

Sentiu sede e solidão. E lembrou-se da professora de português:

— No Enem, o importante é manter a calma, respirar fundo e fazer o que se sabe.

Tentou se manter calmo e ficou mais nervoso. Respirar fundo era impossível. Mal conseguia controlar suas mãos, quanto mais a respiração.

Olhou para os lados e viu os outros concorrentes escrevendo com veemência. Ficou mais nervoso ainda e se sentiu paralisado. Talvez fosse melhor se levantar e desistir, acabar logo com esse sofrimento.

Apertou as mãos com força, e, lentamente, abriu os olhos.

O cenário não se modificara. Olhou para fora pela janela e se viu criança…

Esse tempo lhe pareceu tão longe, afinal tinha agora dezoito anos. Viu-se sentado na carteira da escola do bairro, desalentado. A professora se aproximou dele e perguntou:

— O que foi, Pedro?

Ele olhou para ela e uma vontade de chorar aumentou em seu peito.

— Não consigo fazer o exercício! — falou com dificuldade.

Dona Terezinha se aproximou ainda mais e lhe disse:

— Vou te explicar!

Ela era assim, não era pecado não saber.

Naquela tarde, no colégio novo, descobriu que gritar com uma criança e colocá-la de castigo não aumentava sua capacidade de compreensão. E aprendeu naquele dia a diferença que um bom professor pode fazer: aprendeu a fazer a conta de matemática e o medo desapareceu lentamente.

Voltou-se para a folha à sua frente e se sentiu mais calmo. Lembrou-se o motivo de ter escolhido fazer Letras. Começou a fazer a prova e viu que conseguiria. Sentiu-se maior e mais feliz, pois sabia que sua escolha era acertada.

Sabia também que outros, como ele, estariam algum dia em seu lugar. E mais seguro e confiante, sorriu para o futuro.