De olhos fechados

Close up portrait of romantic kiss on beach.; Shutterstock ID 118940668; PO: The Huffington Post; Job: The Huffington Post; Client: The Huffington Post; Other: The Huffington Post

Foto original: The Huffington Post

Ana entrou na sala de mau humor. Não por causa do trânsito ou do curso. Afinal, gostava da faculdade, e como ia de carona para a aula, não se estressava por dirigir no dia a dia ou devido à falta de lugar para estacionar.

Pedro a pegava em casa todos os dias, eram colegas desde o ensino fundamental. Tinham estudado juntos para o vestibular e entrado no mesmo ano para o curso de Comunicação.

Ele era seu melhor amigo, mas de uns tempos para cá, tudo nele a irritava. Seu jeito carinhoso de tratar os outros, seu bom humor e até a maneira otimista com que lidava com a vida.

Ela gostava dele, sempre gostara, mas às vezes se irritava com sua paspalhice.

— É isso! — falou para si mesma, enquanto do fundo da sala olhava o colega conversando com Paula.

— Que ódio dessa menina! — ouviu sua própria voz com espanto.

— De quem você está falando, Ana? — perguntou Cristina, sua melhor amiga, algo espantada.

— De ninguém, Cris! Tê pensando na menina da biblioteca, que não me deixou renovar o livro de semiótica!

— Ó! Para com isso, amiga! Que estresse!

— É, acho que esse TCC está me enlouquecendo! — Ana explicou, sem tirar os olhos e o pensamento de Pedro.

Fingiu que lia um livro e ficou com o olhar em um e o pensamento no outro. Não sei por que Pedro não namora alguém decente! Primeiro foi a Regina do 5° período. Ela acabou com ele! Agora fica ai dando mole para essa outra.

— Nem!

Pensava e se irritava com ele sem entender bem por quê. Não conseguiu prestar atenção na aula, e olha que era a matéria de que mais gostava.

Incomodada, saiu para a cantina ainda sem entender o que sentia. Pensava nisso quando ouviu uma voz atrás de si:

— Ei menina! Não fala mais comigo?

Virou-se e viu Pedro, com aquele seu sorriso irritante. O cabelo negro e os olhos da mesma cor pareciam também estar sempre sorrindo.

— Que foi?

— Ó, para a braveza!

Ela se sentiu culpada e se penitenciou:

— Desculpa !Tô meio estressada! Deve ser o TCC!

— Relaxa! Eu gosto de você de qualquer jeito! — disse Pedro, e mexeu na franja dela.

Ela não conseguiu deixar de rir.

— Para! Você é irritante! — disse, dando um soquinho no braço de Pedro.

Sentaram-se juntos e ela esqueceu por que estava com raiva dele.

O tempo passou sem que ela percebesse. Ele contava tudo a ela, e ela retribuía da mesma maneira. Antes de voltar para a sala, ele pediu:

— Ana! Estava precisando de um favor seu. Você me ajuda?

Ela aquiesceu, e entraram na sala.

Saíram juntos da faculdade e Pedro lhe explicou:

— Seguinte: quero que você me ajude a escolher um presente para uma menina muito especial!

Ana não ouviu o resto. Um zumbido começou a soar em seus ouvidos. Concordou com o pedido maquinalmente.

Pararam no shopping e entraram numa loja onde ela gostava de comprar. Escolheu um jeans e uma camiseta, que pela descrição de Pedro era o tipo de coisa de que a garota gostava.

Pagaram e saíram do lugar.

Apesar de ele tentar conversar, ela não conseguia responder com mais do que alguns murmúrios.

Pararam em frente de sua casa. Ela não conseguiu mais se conter e disse:

— Olha, Pedro! Eu não quero intrometer na sua vida, mas acho que você devia se cuidar antes de se dar mal de novo!

Enquanto ela lhe dizia tudo que estava engasgado, ele apenas sorria e olhava para ela. Até que ela não resistiu e exigiu:

— E então, criatura? Você escutou?

— Tudo! Mas não tem jeito, estou apaixonado!

Ana sentiu o sangue lhe subir às faces, mas antes que pudesse xingar o ingênuo romântico, Pedro pegou seu rosto entre as mãos e a beijou nos lábios.

Ela retribuiu sem pensar. Quando abriu os olhos, ele disse:

— O presente é para você!

E então ela viu que a paixão não era só de um. Desta vez quem o beijou foi ela, com um amor que ela até então desconhecia.