O último romântico

mincromant3Eu hoje acordei meio clichê. Totalmente previsível, como o tempo que tá fazendo lá fora. Um tempo tão sem vergonha que nem sequer promete mudar. No máximo, ameaça.

Clichê meus caros, clichê. Feito as músicas do Lulu Santos, pra quem, aliás, eu já virei muito a cadeira. Pra ficar só no musico que teima em não envelhecer, hoje eu tô que nem as letras e melodias das canções de Lulu. Ou seja, um refrão que gruda feito goma de mascar no céu da boca, ou naquele dente recém obturado durante um tempaço. O resto da letra que você nem lembra, o que também não importa muito, pois todas elas remetem, um pouco mais ou um pouco menos, ao amor, à busca pela felicidade, aos momentos em que ela me faz tão bem, ao movimento de uma onda no mar, ou a um certo olhar que cruza, ou cruzou, sei lá, o meu caminho.

Engraçado é que, cá com minha camiseta branca, minhas havaianas e meus botões da camisa que está no armário, sempre brinquei que quem era o último romântico era eu, e que o Lulu estaria no máximo em segundo lugar desse pódio renascentista, da merrrma forma como digo que fiquei na terceira colocação no concurso de sotaques genuinamente cariocas, à frente de Cazuza, e perdendo por poucos décimos para Evandro “Blitz” Mesquita.

Só que hoje é mais uma segunda-feira insossa. Tudo pode acontecer, óbvio. Mas o provável mesmo é que nada além de um dia rotineiro e chocho vá se desenrolando, feito àquelas óbvias línguas de sogra, que teimam em ir apenas numa direção.

É que eu hoje acordei previsível, a ponto de tomar o suco da caixa de ontem na caneca verde clara de ontem, de dar um rolezinho basicão com meu cão Guru, de comer uma banana com o iogurte de sempre. De praticar ioga, malhar, treinar judô, ou correr e meditar no templo do Yogananda. De ir vomitar frases feitas numa profissional. Não a escort — antes fosse —, mas a outra, a que cobra um pouco mais barato, mas que finge ainda melhor.

Dar bom dia e não receber bom dia, acenar com a mão para um conhecido e ficar com a mão abanando no ar, descontar um cheque no banco e torcer para não encontrar nenhuma maria faladeira à minha frente, daquelas que têm necessidade de falar qualquer coisa para qualquer alguém.

Hoje vou caminhar, decidir na hora se abro o guarda-chuva, ou se sequer o ponho na bolsa que uso cruzada e que já está com o fecho quebrado há mais de meses. Vestir uma bermuda neutra ou uma calça que já foi azul e virou verde clarinha, depois da primeira lavada. Atender o chato honesto do telemarketing procurando pelo meu pai, que já foi pra Alzheimerland há uns vinte e poucos anos.

Mas antes vou comer o mamão papaia, amassado como sempre. E a aveia da promoção, que já não é mais aveia, é apenas farinha de aveia. E pra ninguém achar a esta altura que o autor está neo ou pós-realista demais e pouco Andy Warhol e suas sopas Campbell igualmente previsíveis, tanto no sabor, como na expressão Pop-Art, vou me ancorar num momento singelo de minha vida. Até porque são sempre esses momentos simples e despojados que nos mantém um pouco mais… Pelo menos é isso o que eu acho. Por agora, ao menos, porque num previsível próximo texto, tudo pode estar fora de lugar.

Eu morava e trabalhava em Blumenau, Santa Catarina, e indo para o trabalho um dia, ao lado de um misto de namorada com amiga (é, eu ainda tinha meus 26 anos e nem tinha completado as aulinhas de inglês…) gaúcha de cabelos frisados, eu reclamava da vida. Entre um leque variado de defeitos e qualidades, sou um reclamão de carteirinha. Ainda que amadurecido e menos visionário e menos ão, ão, ao, hoje estou bem mais para inho, inho, inho.

Mas no esplendor daquela encheção de saco, eis o que a moça me falou:

“Eduardo, a vida é isso, tchê! Trabalhar, fazer sua atividade física e namorar. E pronto. Não tem muito o que pensar. A vida é assim e pronto. Barbaridade!”, ela afirmou, e logo depois onomatopou numa pedra.

Tive de concordar na hora, até para não me aborrecer com discussões inúteis logo pela manhã. Ela talvez estivesse certa: não há muito o que sonhar, mas ainda nos resta o consolo de vivenciar e deixar os lábios se lambuzarem com o tatibitati de nossas vidas, sempre com um olhar inocente e justo observando tudo o que nos ocorre.

Pra que eu possa sair com o esganiçado Guru, que já começa a fazer barulho com suas tralhas como faz sempre que está insatisfeito, termino com uma outra passagem.

Voltando de uma sexta-feira sem promessas da Revista Geográfica Universal, lá no tempo das ilusões, na época com um colega mais velho, reclamei de novo, fazendo uma espécie de velha surda estilizada. Ele, com a resignação dos antigos, me disse então, antes que o ônibus 574 passasse:

“Duduzinho, quando você tiver a minha idade, vai perceber que a felicidade pode ser apenas chegar em casa e ter uma comida bem gostosa e quentinha.”

Concordei com uma certa soberba, que agora já desapareceu. E comecei a cantarolar mentalmente: “Talvez eu seja o último romântico…”

E la nave va