Lembranças

loneO sol da manhã batia em seu rosto enquanto caminhava. A praia estava vazia, com exceção dele próprio e de algumas aves marinhas, sobrevoando no alto e procurando algo para se alimentar.

Gostava de caminhar nessa hora do dia, sentir a brisa do mar, ouvir o barulho das ondas. Por alguns instantes ficava em paz.

Enquanto andava sem pressa à beira-mar, pensava em sua própria historia.

Trabalhava numa grande companhia americana, tinha um bom apartamento, um carro do ano. Para todos representava um homem de sucesso. Olhou para trás e viu seus passos desaparecerem ao contato da última onda que ia em direção à praia.

Vivia sozinho. Tinha alguns amigos, vários conhecidos, uma tendência ao isolamento. Os poucos convites sociais que aceitava na verdade eram compromissos profissionais, um jantar de negócios, um concerto de musica clássica que a empresa patrocinava e ele, como Diretor de Marketing, precisava comparecer. Não tinha como hábito frequentar festas ou reuniões informais. Vivia para o trabalho, que se tornara o seu modo de vida.

Durante a semana mantinha seus hábitos, dentro de uma rotina espartana. Acordava cedo, vestia a roupa de corrida, se dirigia ao parque ao lado de seu prédio. Durante 45 minutos se exercitava, caminhava a maior parte do tempo e fazia desta tarefa uma obrigação diária. Depois um banho, um café simples com uma torrada, e descia para a garagem.Com a pasta ao lado no banco do passageiro, ligava seu carro e se dirigia para o escritório.

No trabalho, pedia sua agenda à secretária. Ao meio-dia fazia uma pausa para um almoço rápido, e concluía sua jornada dentro do horário programado.

Às 18h30 encerrava o expediente e voltava para casa. Ao chegar tomava um banho, revia seus apontamentos no computador. Depois de um pequeno lanche, assistia ao Jornal da Noite e adormecia, sem pensar em nada em relação ao futuro.

Pensava nisso quando sentiu a água tocar seus pés. E se lembrou dela: “Helena!”

Helena tinha entrado em sua vida como um furacão. Na verdade, a conhecera na empresa. Havia um programa de trainees e ela entrara na última turma. Apesar de não estar no seu setor, se encontravam casualmente na mesa de café.

De comum, só o habito de tomarem um café às 3 da tarde. O local era de acesso a todos os funcionários, fora ideia sua e adotada pela diretoria, como forma de integrar os funcionários. Sorriu por causa da ironia.

Lembrou-se do dia. Estava de costas para a porta quando ouviu seu nome:

“Oi, você é o Paulo, não é?”

Assim. “Paulo”. Não “Dr. Paulo” ou algo do gênero, como todos que se dirigiam a ele.

Voltou-se em direção à voz e viu uma jovem de uns 25 anos, com lindos cabelos castanhos e um sorriso que o abalou:

“Sim, sou eu!”, conseguiu dizer, sem tirar os olhos dos dela, que eram castanhos, mas não muito escuros, e tinham um brilho, um viço de juventude.

Helena tinha a pele clara, e o sorriso realçava sua beleza.

Ele não sabia, mas se apaixonara por ela naquele momento. Começou a esperar a hora do café com uma ânsia que desconhecia possuir.

Marcaram de ir a um cinema, ela dissera que o filme era imperdível, ele acreditou em tudo o que ela disse. Depois da sessão ela o levou a um bar, com um argumento que ele não conseguiu resistir:

“Vamos, Paulo! Lá é suave! Você vai amar!”

Ela falava rápido, ele sorria ao ver tanta vida perto de si.

Ela estava certa. Ele já estava amando.

Quando a convidou para um último drinque em seu apartamento, ela aceitou sem cerimônia. Ao entrarem, ela tirou os sapatos e se justificou:

“Nossa! Ele estão me matando!”

Ele sorriu, ela o envolveu em seus braços e o beijou com paixão.

Enquanto se lembrava, sentiu que já andara muito. Olhou para trás e reconheceu ao longe sua casa, encravada no condomínio à beira-mar.

Sentiu um vazio. E viu que, como suas pegadas, Helena já não estava ali.