Fotografias

"Jardim das delícias", Hyeronimus Bosch, detalhe

“Jardim das delícias”, Hyeronimus Bosch, detalhe

Fotografias, as antigas, deviam ser proibidas. Definitivamente. Em lugar delas, deveria haver bustos. De terracota. Terrosos, portanto, pois de Gaia as mulheres são filhas e dela devem herdar todo o brilho, toda a cor.

Sim, porque os bustos seriam só de mulheres. As belas, já que assim nossas lembranças sempre se revestiriam de imprescindível beleza. As menos belas também seriam bem-vindas. Às mais feias cabe solicitar sentidas escusas, mas virago alguma deverá povoar a mais ínfima parte de nossas reminiscências.

Sem vida e sem cor seriam os olhos. Que vida e cor nós lhes emprestaríamos, de acordo com variadas sequências e tons: o reflexo do quebrar das mansas marés matinais em grandes olhos azuis; o frufru de saias na sofreguidão dos abraços de sôfregos  amantes; o odor almiscarado do sexo das fêmeas dos colibris; o esmaecido acinzentado dos dedos dos amantes ao se descruzarem na hora da fatal despedida.

As fotografias ainda porventura existentes — as antigas, que das modernas nada entendo, e nada entendendo, delas fujo — deviam ser jogadas no lixo. O que fiz com a última que me veio às mãos. Retangular, não maior que meia folha de papel ofício, cores desbotadas, restos devolvidos pelo estômago de mareado leviatã, mostrava jovem casal comemorando o aniversário do filho.

O jovem casal: eu e minha antiga mulher. O filho: em seus dois ou três anos, irrequieto mistério em meus braços, inquietante enigma que até hoje não soube desvendar.

Minha mulher enlaça-me o braço, mas é gesto de distinta distância, tímida submissão ou dissimulação de algo para mim insuspeito, intangível. Talvez a determinação de meu carma, rígido, imutável, a exigir purgação por atos e desatos, pecados passados, presentes e futuros. Ou o simples e casto gesto de carinho de mãe e esposa?

Iluminada pela luzinha do abajur, colada à parede logo acima do computador, essas as coisas que pensava, quando, alta madrugada, exausto pelos espantos da criação, para a foto olhava.

E assim foi até que, certa madrugada de calma e silêncio insuspeitos, maviosa melodia e leve brisa invadiram-me o quarto. Pareciam provir da foto. Incrédulo, dela me aproximei. A música aumentou, transformou-se em torrencial melodia. A brisa aumentou, transformou-se em ventania. Que me puxou para dentro da foto e dentro da foto me perdi.

Dei por mim à beira de sombria floresta, em sombria clareira, em meio a sombrio sabá. Bruxas e feiticeiras a revolutear em torno de Satã. Entoavam loas, a ele louvavam com canto e dança. Nuas estavam. À luz da lua via-lhes os seios, o carnudo das partes, delas adivinhava o rechonchudinho do sexo.

Hirto me pus. Cínico risinho antevisão delícias por mim a aguardar. Que eu viverei. Junto dele, Asmodeu, Azazel, Belial, Marduk, Satã, divino amado Satã.

Para ele me encaminhei. Senti insuspeito friozinho. Só então dei-me conta de nu também estar. O tempo todo. Risinho mais cínico ainda me iluminou, mais hirto me pus, mais rígido me aprontei para mil delícias, ah, delícias mil à minha espera, prontas, prontinhas, louvado seja Azazel.

Apressei os passos. Pelas bruxas cercado, estendi as mãos, tocá-las, esquivaram-se, os cantos soturnos aumentaram solenes soturnos, soturnos solenes. Mais: em cada uma delas identifiquei rostos feições jeito cada amor tido por mim desde doce primeira namoradinha, até gringa madurona peitos brancos de leite, botões rosadinhos rosadas romãs. Um pecado, um sofrimento, um gemido, uma dor.

Por entre esgares guelras garras Satã ostentou brandiu punhal, cutelo doce luz da lua sombrio rebrilhar. Silêncio, elas para ele a me empurrar.

O que estaria acontecendo?

Alguns passos adiante, compreendi: o sabá, cerimônia. A cerimônia de minha castração. Provocaram-me, hirto puseram-me, para o sacrifício aprontaram-me. Pronto estava? Estaria?

Não era mais filho de Satã, seu dileto filho tinha deixado de ser. Por vez primeira senti vergonha. Da nudez. Do sexo, de sua impudica rigidez. Ele, atrevido, voluntarioso, o pecado. Eu, atrevido, voluntarioso, o pecador. Ele não mais abençoado, eu banido, amaldiçoado.

Esforço-me por fugir, impedem-me, mais e mais as bruxas empurram-me para o cutelo. Aos pés de Satã, pequena laje, à guisa de altar. Nela deitam-me, pronto estou para o golpe. Fatal.

Deixo então de me debater. Conformo-me. Por Satã serei castrado. Por Satã meu pinto decapitado. Castigo. Merecido. Nas garras de Satã, ensanguentado meu pinto meu coração meu castigo.

Mas, corpo mutilado, alma livre de peias. Junto ao Senhor, no aprisco do Senhor serei recebido. Dele receberei a real absolvição, puro galgarei as portas do paraíso, viverei em Sua bem-aventurança de mim afastado para sempre o pecabundo tinhoso. Enfim bem-amado em Seus divinos braços, murmurarei: Kyrie eleison, Christe eleison, kirie eleison.

O cutelo é erguido. Aguardo, enfim, a libertadora mutilação. Ao meu lado, uma bruxa — a cara de secretária fogosíssima amante — piedosamente segura pequeno recipiente recolhedor dos restos daquilo que…

Súbito, luz, clarão.

Tudo muda. Satã não é mais Satã, anjo agora Satã é. Grandão, branco bonito a divina beleza a ostentar com divino despudor a mirar-me a me sorrir com divina graça. Dura divina graça. De seu divino braço pende o divino cutelo. Que ele ergue. Para o divino golpe. Fatal.

Estonteado, relegado pelo Diabo, condenado por Deus, incapaz de atinar razão para caprichosos caprichos tão caprichosas entidades, agarro-me à mísera condição humana. O que me resta.

A mão do anjo desce. Apavorado, o divino golpe a meio, dou grito tal que alvoroça os pardais, desassossega os morcegos, inquieta os vizinhos.

Tiro a foto da parede, corto-a em pedacinhos, jogo tudo no lixo. Respiro fundo, Para alívio total, desço as mãos às partes. Verruma-me suspicaz perguntinha: tudo inda terei intacto ou…