Amanhã

Oliver-SacksNa natureza, o animal que nasce mais desprotegido de recursos é o ser humano. Não tem pelos suficientes para protegê-lo do frio ou da umidade. Sua capacidade cognitiva é limitada. E seus instintos, podemos dizer, se encontram no estágio primário.

Não sobreviveríamos sem ajuda de um outro.

Um potro, logo após seu nascimento, se coloca de pé e tenta se equilibrar neste mundo novo e desconhecido. Quanto a nós, se não houver um acolhimento, proteção e alimento integral, corremos o risco de perecer poucas horas após chegarmos a este mundo.

Talvez a sobrevivência do ser humano seja o maior mistério a ser decifrado. A ideia de família, grupo e sociedade parece ser primordial para nosso desenvolvimento e a explicação de termos permanecido como espécie no Cosmo.

Isto não nos impede, porém, de agirmos com frequência de modo extremamente individualista. Se está bom para o meu lado, os outros que se virem. Esquecendo que estamos vinculados à prática dos relacionamentos: afetamos e somos afetados por eles.

Há exceções de muitos, ou até milhões, que se solidarizam com o que ocorre no planeta; para outros, porém, o impulso de olhar somente para si ainda predomina.

Mas, afinal, aonde quero chegar?

Talvez à necessidade de refletirmos sobre nossas práticas.

Um medo primordial me parece ser encontrado em nosso íntimo: o do abandono. Será que terei alguém ao meu lado nas horas difíceis? O que acontecerá quando o futuro chegar, já que neste instante ele se encontra a caminho?

Talvez Oliver Sachs possa nos dar uma direção. Cientista renomado, morreu há poucos dias, no final de agosto, vítima da recidiva de um câncer.

Ao saber que sua doença tinha retornado e desta vez de forma mortal, não se deixou levar pelo desespero, e escreveu um artigo sobre sua própria condição, onde relatava, não a ausência do medo da própria morte, mas a gratidão de ter podido viver.

Refletindo sobre a própria vida, nos diz que sofreu, amou, teve amigos e se decepcionou. Mas, principalmente, teve a felicidade de ver no tempo dado a ele neste planeta uma razão de viver.

Viver para realizar um trabalho, para um encontro com outros, com quem compartilhava afinidades e desejos. Pessoas que deram a ele sentido e afetos, direção e oportunidade de viver, de forma digna, uma vida feliz.

Hoje, refletindo sobre o futuro, confesso um certo desalento. E pergunto quantos caminhos errei, quantas decisões me trouxeram arrependimento e dor. Mas procuro no amanhã uma oportunidade de buscar algumas respostas, de não desistir diante do inevitável.

Na amargura ou vitimização não encontraremos senão um sentimento de medo, angustia e solidão. Mas se acreditarmos que no próprio viver e no encontro com o outro podemos encontrar também o amor, a esperança e a coragem, podemos ter uma resposta para nossa própria solidão interior.

Talvez nesse momento possamos não nos sentir tão sós, apesar de estarmos muitas vezes sozinhos diante de nossas próprias dificuldades. Nesse momento, não raro, nos retorna uma sensação de desproteção ou falta de recursos para enfrentar os desafios que se apresentam diante de nós.

Mudar esta sensação interna é fundamental.

Afinal, se estamos aqui neste mundo de passagem, nele ainda podemos atuar. Talvez um gesto nosso ou uma palavra possa fazer a diferença. E possamos, antes de partir, nos sentir agradecidos, não amargurados por termos deixado de tentar encontrar nossa própria felicidade e realização.

Ao Oliver, agradeço a lembrança da razão de ainda andarmos neste planeta azul.

Assim caminha a humanidade.

2 Resultados

  1. Elis Regina Oliveira Pereira disse:

    Texto lindo Gustavo. Sinto uma gratidão eterna todo dia quando acordo, abro os olhos e sinto que tenho mais uma oportunidade. Bjs

  2. Elis Regina Oliveira Pereira disse:

    Texto lindo Gustavo. Sinto uma gratidão eterna todo dia quando acordo, abro os olhos e sinto que tenho mais uma oportunidade. Bjs