Se dirigir, não digite

Digitar-textoDizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Difícil de acreditar nisso, pois somente em minha casa três motoristas foram vítimas do mesmo tipo de acidente. Será que somos para-raios?

Explicarei os três acidentes, contando a história daquele de que fui vítima, que aconteceu na última sexta-feira, por volta de 20h00, numa quadra comercial de restaurantes, em Brasília. Voltava eu tranquilíssima da academia, sexta-feira à noite, satisfeita por ter cumprido minha meta da semana. Peguei o Eixinho W, fiz a tesourinha[1] para entrar na quadra. Não andei 20 metros além da tesourinha e parei o carro, pois o da frente também estava parado: sinal vermelho, tudo certo e eu ouvindo minha musiquinha, pensando aonde poderia ir tomar um vinho mais tarde, quando levei um senhor solavanco, com um susto e um barulho horrendo. Meu corpo se projetou para frente, eu estava usando o cinto de segurança, nenhum dano físico, apenas o meu joelho bateu próximo à ignição. Sim, bateram na traseira do meu carrinho enquanto eu estava parada no sinal vermelho, num lugar e num horário movimentados.

O indivíduo infrator só saiu do carro depois que liguei o pisca-alerta e saí. Aproximei-me dele para saber se tinha bebido. Não cheirava a bebida. Primeira pergunta dele: “Você tem seguro?” Eu disse um seco “não”, porque isso não faria a menor diferença para ele, que tinha batido na traseira e teria que pagar, independentemente de eu ter seguro ou não.

Ainda tive que ouvir do mané que ele até olhou para a frente para verificar se eu não estava distraída com o celular e por isso não andei quando o sinal ficou verde.  Bom, quando estou dirigindo, o celular fica dentro da minha bolsa fechada. Se alguém me liga, só atendo quando chego ao meu destino, é o meu procedimento padrão. E não andei simplesmente porque o veículo à minha frente tampouco andou, pela simples razão de que o sinal continuava vermelho. Mas, mesmo que estivesse distraída e o sinal esverdeasse, a figura de trás passa por cima? É isso mesmo, produção? Pensei que todos os carros fossem equipados com um dispositivo sonoro chamado “buzina”.

Trocamos telefones e segui meu caminho, chateadíssima. Poucos minutos depois, já em casa, o elemento me ligou para saber se eu havia me machucado, se tinha chegado bem. Aproveitou para dizer que não fugiria de suas responsabilidades, mas estava desempregado, blablablá. Minha noite de sexta-feira já era.

No dia seguinte, fui a uma oficina próxima e constatou-se num rápido diagnóstico que, além do para-choque, o assoalho do carro estava empenado e havia danos no escapamento. Total do prejuízo: cerca de oito mil reais. A partir daí começou minha saga para falar com o sujeito, fiz até boletim de ocorrência. Mas não estou disposta a ter dor de cabeça com isso, afinal pagamos seguro para não usar, mas se precisamos, então terceirizamos os perrengues.

A pergunta que não quer calar é como alguém colide tão forte num local tão movimentado, se, ao que tudo indica, não havia bebido. Só consigo pensar em uma explicação: o cidadão estava distraído, distraidíssimo, muito provavelmente com o celular.

Recentemente, uma seguradora fez um estudo e listou as principais causas de distração dos motoristas; o uso do celular, claro, figurou em primeiro lugar. A quantidade de aplicativos dos smartphones, principalmente de comunicação e redes sociais, tira a atenção do motorista. Mas a culpa não é da tecnologia, a pessoa só se distrai se faz uso do dispositivo. Não sei o que está acontecendo com as pessoas, uma impaciência, uma ansiedade, uma necessidade de responder a tudo instantaneamente. Acho que muita gente não aguentaria viver no tempo das cartas. Uma resposta poderia demorar semanas, dependendo da distância, até meses.

Voltando ao trânsito, um estudo feito pelo Departamento de Trânsito dos Estados Unidos concluiu que o uso de celular aumenta em 400% o risco de acidente, um risco muito maior do que o causado por embriaguez. O problema é que esse risco não é levado a sério pela maioria das pessoas.

Outro estudo realizado Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos revelou que 25% dos acidentes de carro registrados naquele país são causados porque os motoristas estavam usando o celular, tanto para falar, como para escrever mensagens! Segundo esse estudo, enquanto usa o celular, o motorista não enxerga 50% do que acontece ao seu redor. O uso do celular desvia a atenção e causa perda de parte da capacidade neurossensorial, fazendo com que o motorista perca o contato visual e mecânico (prejudica o arco reflexo).

Para exemplificar, há menos de um mês, houve um acidente feio aqui na Capital Federal. Uma pessoa estava dirigindo em direção ao aeroporto, numa via de alta velocidade, o Eixão. Estava usando o celular, perdeu o controle do carro, bateu na mureta de proteção e caiu na tesourinha. Por sorte, nenhum veículo estava passando embaixo naquele momento. Caso contrário, as consequências poderiam ter sido fatais.

No Brasil, a chamada Lei Seca diminuiu em 10% o número de mortes no trânsito, já no primeiro ano de aplicação. Uma multa salgada, apreensão da carteira de habilitação e a proibição de dirigir por um ano são razões suficientes para as pessoas perceberem o risco. O risco de dor no bolso, claro. Por outro lado, a multa para quem é pego com o celular enquanto dirige é de apenas 85 reais.  Pouco prejuízo, vale a pena arriscar.

Perceberam a diferença? Não é o risco de acidente, de morte ou mesmo a necessidade de uma direção mais segura que interfere no comportamento da maioria das pessoas no trânsito. É a mão pesada da Lei, na forma de multa.

Como mencionado no início do texto, o mesmo tipo de acidente aconteceu comigo e com minhas filhas, em menos de um ano. Minha família não é um para-raios, mas demonstramos claramente os estudos realizados, com a porcentagem de 75%. Felizmente, ninguém se machucou, mas continuamos todos sujeitos a sofrer outros acidentes causados por distração. E, a depender das circunstâncias, as consequências podem ser realmente graves.

Um bom fim de semana procês!

[1] Tesourinha: pista que dá acesso às superquadras, cortando o Eixo rodoviário-residencial. É um recurso bem típico de Brasília, o Plano Piloto é feito de tesourinhas. Quem vem de fora acha muitas vezes que é um simples retorno (veja imagens na internet; você vai entender direitinho o que é tesourinha).

 

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