Duas mulheres, dois segredos

color hairNos conhecemos na sala de espera do nosso dentista. Naquela clínica, o atraso no atendimento nunca era a exceção, era sempre a regra. Depois de folhear meia dúzia de revistas caras com edições mais atrasadas ainda, desistimos das fofocas que já faziam parte do passado longínquo das celebridades, duvido muito que alguém vá se lembrar de fofocas da semana anterior nessa era de notícias expressas e ultra rápidas da internet.

Ficamos conversando sobre amenidades, como o tempo, a violência, que de tão banal já não é mais tema especial de nenhuma conversa, e sobre o custo de vida que está pela hora da morte, com trocadilho, por favor.

Erámos duas mulheres maduras e nervosas além da conta, esperando ansiosas a vez de sermos atendidas. Para disfarçar o pânico e o medo mortal que tínhamos daquela pequena e odiada máquina de fazer dor e cavar buracos nos nossos molares, que como se não bastasse nos fazer tremer na base e nas pernas fazia soar um alarme aterrorizante nos nossos ouvidos, aquele barulhinho irritante que mais parece uma britadeira bucal e nos fazia lembrar o massacre da serra elétrica, unimos nossos medos e decidimos enfrentar com muito altruísmo a hora mais pavorosa.

(Altruísmo: uma atitude que consiste em ajudar companheiros que se encontram em perigo. O altruísmo não é uma característica exclusiva do ser humano, pode também ser encontrado nos animais, especialmente nos mais evoluídos. O altruísmo já foi verificado em aves — corvos, por exemplo — e em mamíferos. Um exemplo de um animal altruísta é o golfinho, que ajuda um companheiro ferido a se manter boiando, e o alimenta e protege de ataques de predadores, como tubarões.)

Por isso nos tornamos tão unidas na dor anunciada. Tínhamos entrado pela porta do consultório de cabeça baixa, como as acompanhantes orientais, mas nos sentaríamos naquela temida cadeira de dentista de cabeça erguida. Se conseguiríamos nos levantar já era outra história. Por isso, tomamos a precaução de trocar telefones e e-mails para, quem sabe, um outro encontro ali no consultório, em um café, no clube ou no nosso habitat mais natural, a internet.

Após esse breve encontro na sala do medo, retomamos contato e, para minha surpresa, descobri tempos depois que havia encontrado uma amiga doce, leal, boa confidente, com um senso de humor delicioso e de quebra, muito elegante. E descobri que além dessas qualidades, que aprecio muito em uma amizade, era também muito discreta quando o assunto era vida pessoal.

No entanto, após cinco ou seis anos de amizade, ela me confidenciou que precisava desabafar e gostaria que esse desabafo ficasse entre nós, pois tudo que ela desejava era dividir alguns segredos sobre sua vida intima, principalmente sobre seus relacionamentos, um casamento de mais de trinta anos que já havia dado o que tinha de dar e outro de cinco anos, com um amante que ela fazia de tudo para agradar. Foi assim que comecei a ter acesso aos seus segredos, que ela fazia questão de chamar, como o poeta, de segredos de beleza e de liquidificador, e mais um que ela guardava a sete chaves: seu nome próprio, Constância, que ela detestava, por isso pediu que eu a chamasse carinhosamente pelo apelido, Nastassja, que ela havia se dado nos anos 1980 inspirada no filme “One from the Heart”, um filme de Francis Ford Coppola que tinha como estrela principal a avassaladora Nastassja Kinski, sonho de consumo de milhões de homens, e uma beleza invejada por onze entre dez mulheres. Com licença poética e tudo, que nós mulheres temos o direito. Realmente, até hoje a Constância ainda conserva os traços de uma linda mulher, semelhantes aos da atriz do filme sensual.

Para minha surpresa, minha amiga queria revelar mais outro segredo. De tempos em tempos, ela traía sem dó nem piedade seu cabeleireiro Pablo, informação que poderia gerar uma verdadeira mobilização da Polícia Federal Brasileira, FBI, CIA e Interpol e me deixou horrorizada. Não tenho nada a ver com a vida alheia, quem me conhece sabe que eu vivo e deixo viver. Não sou falsa moralista. Mas trair o cabeleireiro é demais pra mim, pior do que traição ao marido, que acho banal.

Constância me confessou que sua inconstância era uma coisa de louco. E de médico, médico especialista e terapeuta dos bons, de Freud a Espiridião Amim. Uma observação para meus leitores impacientes: Freud é conhecido mundialmente até hoje, enquanto Espiridião Amim é um quase desconhecido do público na era da internet, mas nos anos 1980 foi um político muito participativo, e totalmente careca. Segundo diagnósticos e tratados dermatológicos, tinha alopecia universal, traduzindo, falta de cabelo generalizada.

Vamos combinar, quem quer saber de político hoje em dia? Nem cabeludo, nem careca, pois contam cada mentira cabeluda que não dá nem pra saber se são carecas por natureza ou fizeram um implante na cara de pau, ops, na careca. Proliferam atualmente os políticos cabeludos fake, caso do político que é presidente de uma casa que representa o povo, mas ele mesmo não representa mais ninguém, e em sã consciência pagou seus implantes com o meu, o seu, o nosso dinheiro.

Ah, deixemos esta prosa com tom de revolta pra lá. Já nos basta a Dilma. Voltemos a Constância, que, ao contrário do Amim, exibia uma juba de dar inveja enquanto fazia do Pablo, seu cabeleireiro, o terapeuta da hora. O coitado, além disso, tinha que bolar mil maneiras de deixar o cabelo dela diferente, já havia esgotado as cartelas de cores das tinturas usuais, havia misturado azul com roxo numa semana, na outra verde com vermelho, e na outra feito mechas brancas com fundo rosa e matizes marrons. Quanta extravagância no cabelo da inconstante da Constância…

Até que, naquele dia, ela pediu:

— Pablo, colore meu cabelo de uma cor neutra, nude, nenhuma…

— Que porra é essa? — quase escapou da boca do pobre Pablo. Mas ele se calou, porque a cliente era inconstante com as cores, mas constante na gastança. Em tempos de crise, era pegar e atender. Mas que pedido sem nexo — pensou Pablo. De qualquer forma, ela estava pagando e ele não estava podendo dispensar clientes, então falou alto e bom som para a sua equipe:

— Monas, vamos colorir radicalmente o cabelo da Nastassja hoje… — e saiu batendo o salto quinze e fazendo um barulho esquisito, que mais parecia o som de uma britadeira em ação numa das ruas que estavam em obras para o metrô na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Ao ouvirem aquilo, os cabelos da Constância combinaram à boca pequena que não iriam passar por mais essa, não aguentariam mais sofrimento. E, um a um, todos se suicidaram, se jogaram do alto da cabeça da Constância, a coitada até hoje procura constantemente a ajuda do terapeuta, tentando entender tamanha revolta capilar.

Quando ela me relatou o ocorrido, fui enfática, e a aconselhei a procurar dois especialistas: um para cuidar da sua cabeça, e outro para implantar cabelo humano. Mas já era tarde para isso. Ela estava totalmente careca e usava uma peruca, por isso tanto segredo. E jurei guardá-los todos, principalmente o da traição do cabeleireiro, na minha opinião um tremendo segredo de beleza. E de liquidificador.

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2 Resultados

  1. Laís disse:

    Muito produtivo, me fez pensar muito.

  2. Laís disse:

    Muito produtivo, me fez pensar muito.