O paraíso ou Mimosa, a jumentinha

catedralnuvem…rompi los lazos. Vem e verás al alto fin que aspiro
Antes que el tempo muera em nossos brazos.
Epístola moral a Fabio, anônimo, século de ouro espanhol          

Na vila as velhas velavam.
as moças moçavam,
os rapazes rapazeavam,
as formigas formigavam.
E os sonhos eram poucos,
poucos sonhavam.
Na vila o vigário
duvidava da própria fé:
já não sabia se das beatas
era nobre salvador ou
confessor pé de chulé.
Não lustrava mais o sacrário,
das ladainhas perdia o horário
e até já embaralhava
as contas do rosário.
Saía pelo agreste,
a pensar nas coisas santas,
cismarento.
Achava, por exemplo,
que o paraíso não era
lugar de delícias,
mas de cruel tormento.
Ou não seria tormentoso
o suspiro dos colibris,
o zumbir das asas das sereias,
o ronronar das mariposas
por toda a eternidade  ouvir?
Tão absorto nisso se quedou
que mal percebeu
a figurinha que de repente
à sua frente se postou:
uma jumentinha
que era um mimo só.
Tanto que de Mimosa ele a chamou.
Cabriolar aos saltinhos ela cabriolou;
relinchar baixinho ela relinchou;
trotar mansinho ela trotou;
encantá-lo inteirinho ela encantou.
Por todo o tempo folgaram,
flanaram, flamantes,
qual amados, qual amantes.
Era já quase noitinha
quando ela, como surgiu,
de supetão, foi-se,
num ápice, clarão.
Ele então logo da vila
a caminho se pôs.
Ia renovado, à fé retornado.
Dava-se pressa de as rédeas
de seu rebanho retomar,
fazê-lo à reta senda voltar.
Só que a vila não mais existia.
Em seu lugar grande cidade havia.
Atônito, correu à igreja.
Era agora rica catedral,
diversa, muito, da igrejinha,
a sua, modesta, a original.
Mais pasmo ainda ao constatar:
duzentos anos eram passados,
ele no deleite com Mimosa,
o mundo em seu girar,
alheio àquela prosa.
Tão assustador o fato que
a ponto de ensandecer se viu.
Cisma que cisma,
de repente a verdade,
clara, se lhe surgiu.
O bom Deus bela
lição lhe tinha dado:
Mimosa o condimento,
o tempo o fermento
que lhe mostraram
do paraíso o fazimento.
Uma tarde era a eternidade,
a eternidade um momento.
Ao lado de anjos ou
da cria de um jumento.
Caiu de joelhos o vigário.
Tinha duvidado do Deus,
de seu  amor, do paraíso.
Rogava perdão pelo pecado.
Mas um travo na garganta o aferrou,
a alma se lhe encheu de ais,
ao ver a própria imagem
refletida num dos vitrais.
Consigo a morte,
velha de duzentos anos,
não conduzia.
Pelo contrário,
nele a vida reluzia.
Era a punição do Deus:
à vida eterna estava condenado.
Os sofrimentos do mundo,
todos, devia suportar.
E com a certeza de jamais
poder rever Mimosa,
dali por diante sujeito
a toda e qualquer rebordosa.